E lá fomos nós conhecer a tão famosa Laje de Santos. A curiosidade com a laje já começou no curso básico, quando o professor indicou como um ponto de mergulho excelente e acessível para nós, paulistanos, mas que deveria ser desbravado preferencialmente após algumas outras experiências em lugares mais "calmos".
Antes de começar o meu relato, devo declarar que, ao contrário do Mark, que parece ter nascido com uma vocação e hiperatividade natural para isso, mergulhar para mim é um gosto adquirido e ainda em progresso. Por isso, não posso dizer que estava esbanjando de felicidade e bom humor por acordar às 5 da madrugada em um domingo e cair na estrada, mas a manhã que começava a se desenhar no horizonte prometia um dia bonito e quente, o nascer do sol foi lindo e eu ainda pude cochilar durante o caminho, o que tornou tudo bem mais suportável.
Descemos pontualmente às sete e meia da manhã na marina, como pedia a companhia que organizou a viagem. Claro que esperamos mais de uma hora para sairmos, e nessa altura o sol já tinha despontado, todo lindo e imponente no céu bem azul.
Foi uma hora e meia de barco até avistarmos a pedra em formato de baleia no horizonte, e ainda fomos brindados com um grupo de golfinhos brincando e pulando ao lado do barco. Só isso já teria feito a viagem valer a pena. Mas, quando ancoramos na laje, o mar estava tão cristalino que lá de cima do barco já dava para ver os cardumes formando manchas na água e as pedras no fundo. Não via a hora de me equipar e checar a paisagem de perto!
Mas primeiro é preciso passar pelo ritual da equipagem. E se espreme na roupa, puxa daqui, puxa dali, xinga um pouco, puxa uma perna, puxa a outra perna, encaixa os braços, quase desloca os ombros, respira fundo, puxa mais e sobe o zíper. E monta cilindro, checa colete, checa ar, checa respirador, checa respirador reserva, volta e checa tudo de novo, coloca o cinto do lastro, coloca nadadeira - isso, força -, veste colete, aperta colete, aperta mais um pouco, infla o colete, vai para ponta do barco, põe a máscara - lembrou do shampoo de bebê para não embaçar? -, segura o cinto do lastro, põe o respirador, segura a máscara, olha para o horizonte, respira fundo, passo de gigante e ae, ae, ae, tibum, você está na água!
Descemos em três duplas, o coração batendo rápido conforme o colete desinflava e a linha da água cobria a máscara. Respirar embaixo d'água ainda é um susto para mim e meu cérebro demora alguns segundos para parar de gritar "MEU DEUS, ISSO É ERRADO!" e processar que está tudo bem, vamos lá, é só puxar e soltar o ar devagarinho pela boca, isso, olha só, muito bem!
Mas dessa vez a paisagem que se estendeu diante dos meus olhos não deixou espaço para pânico. Era inacreditável que um lugar tão perto de São Paulo - Santos, quem diria! - podia oferecer um mar tão cristalino e tantas formas de vida. Vimos peixes de todas as cores e tamanhos, nadamos no meio dos cardumes, vimos tartarugas, entramos nas fendas das pedras para encontrar peixes diferentes. Não havia tanta vegetação ou corais, mas quantidade de peixes era inacreditável. Também foi muito interessante sentir a diferença dos bolsões de água gelada e o efeito que o encontro das temperaturas fazia - a água parecia ganhar uma textura oleosa nesses pontos e, como os peixes preferiam ficar no quentinho, você disputava espaço com eles para chegar até o próximo bolsão quente.
Tudo lindo, até voltarmos para o barco para fazer o intervalo de superfície antes do próximo mergulho. Isso porque eu tenho a sorte de sofrer do chamado enjoo de movimento. Quando o barco está em alta velocidade, geralmente fico bem, mas é só ancorar que aquele vai e vem do mar que a maioria das pessoas considera sinônimo de tranquilidade para mim ganha a trilha sonora da cena do chuveiro em "Psicose". Eu tinha tomado um comprimido antes de embarcar, mas estava com o estômago quase vazio e ele não surtiu muito efeito.
Quem não sofre de enjoo em barcos não faz ideia de como é irritante ver todo mundo ao seu redor aproveitando e divertindo-se a valer - até comendo, o absurdo dos absurdos! - enquanto tudo o que você quer é que os deuses se compadeçam logo do seu estado e te acertem com um relâmpago na cabeça. Geralmente nessas horas eu fico fora do barco nadando e deixo os outros serem felizes, mas o sol estava tão forte que era impensável me expor a ele desse jeito, mesmo se injetasse o protetor solar na veia.
Foi uma longa hora e meia de tortura até chegar a hora de nos equiparmos novamente e ir para a água. Nessa altura, eu já estava tão irritada com o enjoo e os loopings que meu estômago dava que só queria sair do barco. E foi assim que eu cometi a besteira de não passar novamente shampoo de bebê na minha máscara, achando que a operação que tinha feito antes do primeiro mergulho ainda daria para o gasto.
Não deu, é claro, e para completar começou a entrar água no meu respirador quando eu puxava o ar. O nervoso de ver a máscara embaçando e de estar engolindo água tornou impossível conseguir compensar, e dá-lhe dor no ouvido. E calma, respira, sobe um pouquinho para o ouvido deixar de doer, alaga a máscara para desembaçar, cospe a água que entra na boca, tenta compensar, desce de novo e, caramba, mais água entrando no respirador, engole água, engasga, não, pára tudo, quero subir, me tirem daqui...
O dive master viu que eu estava entrando em pânico e subiu comigo, meio irritado com aquela novata que atrapalhava o grupo inteiro - porque lógico que no surto todo eu nem estava prestando atenção em seguir o grupo e o Mark estava mais preocupado em me acalmar. O dive master arrumou meu respirador para parar de entrar água. Consegui me acalmar e descer de novo para finalmente começar o mergulho, com a ajuda heróica do Mark, que não largou da minha mão.
Consegui aproveitar o mergulho, mas não tanto como o primeiro. Além de a visibilidade ter piorado um pouco, minha máscara não parava de embaçar e eu tinha que alagar e desalagar o tempo todo para conseguir enxergar - o que é uma encheção de saco quando você mergulha usando lentes de contato. Além disso, também pegamos uma certa correnteza e eu, que não tenho muita experiência, sofri um pouco para nadar literalmente contra a corrente. Como dá para imaginar, é bem cansativo.
Mas foi, sim, uma experiência ótima e vimos peixes de todos os tamanhos e cores e mais uma vez um cenário de tirar o fôlego. A vantagem de não enxergar direito pela máscara embaçada é de repente se ver cara a cara com um peixe que você não sabe de onde veio. O curioso é que os dois mergulhos foram feitos no mesmo lugar (as chamadas "piscinas"), mas foi só tomar uma direção diferente no segundo e dobrar um rochedo que parecia que estávamos em outro ponto. É uma diversidade absurda de linda.
E foi tudo tão bom que resisti bravamente à volta de barco, mesmo enjoada por ter que ir na cabine, já que com meu bronzeado de palmito não dava para encarar o sol lá fora. Conversando com um mergulhador bem mais experiente na volta, ele comentou que achava a laje um lugar fantástico, mas a complexidade era tanta que só depois de uns 40 mergulhos por lá dava para começar a entendê-la.
Não sei o que será dos próximos 38 mergulhos na laje de Santos, mas posso dizer que os dois primeiros foram um começo bem promissor. Já não vejo a hora de voltar!
(Lições aprendidas na Laje de Santos: nunca embarcar de estômago praticamente vazio, nunca deixar de usar shampoo de bebê na máscara antes de cair na água, nunca deixar de testar o respirador dentro d'água antes de descer).
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